Cantinho do HaroldColunas

Revendo o Batman de 1989

Estamos comemorando os 80 anos do Batman, mas 2019 marca também os 30 anos do filme Batman, de Tim Burton.

Sempre que se fala da Batmania iniciada pela série de TV dos anos 60, digo que ela foi apenas a primeira Batmania, já que a segunda começou com esse filme, e na verdade nunca acabou, continuando até hoje.

Com filmes da Marvel e da DC saindo a todo momento, hoje o patamar para tais produções subiu muito. Mas, em 1989, Batman foi algo único. Desde o Superman de 1978 não tínhamos uma adaptação de quadrinhos grandiosa, com uma identidade visual que a diferenciasse de um filme de ação ou ficção como tantos outros. Mas será que era tudo isso mesmo?


Bem, na época era. A escolha de Tim Burton na direção ajudou muito a criar uma Gotham City de visual gótico, a especialidade do cineasta. Mas, revendo o filme agora (ele foi reexibido nos dias 26 e 30 de março na rede Cinemark), é inegável que todo o clima campy do diretor seguinte, Joel Schumacher, criticado a exaustão, também teve forte influência no trabalho de Burton. A diferença é que campy e gótico se misturaram e o resultado, ainda que com alguns defeitos, foi bom, ainda mais para uma produção da época.


Michael Keaton, baixinho como um Wolverine, fisicamente não parecia a melhor escolha para o papel de Batman, mas se saiu bem, dando certa profundidade emocional ao personagem. Pena que o roteiro não criou situações que exigissem mais do ator. A despeito da máscara que não deixava o herói virar sua cabeça, o uniforme é quase uma unanimidade: bonito como poucos nas telonas.

Mas o desempenho do herói dentro da trama gera discórdia, num tema que sempre volta a ser assunto graças ao homem que nunca se cansa de demonstrar não conhecer nada sobre o Morcego: Zack Snyder. Enquanto o Morcego de Batman vs. Superman está mais para psicopata do que para herói, a versão de Burton é extremamente contraditória. Bem no momento da origem do Coringa, tenta salvar o vilão da morte. Para no decorrer do filme matar várias outras pessoas. Pior ainda: tais assassinatos não têm peso algum no enredo, as cenas simplesmente seguem sem citar o ocorrido.


E o vilão? Jack Nicholson foi um ótimo Coringa… ao assistirmos em 1989. Depois de termos Heath Ledger, a régua subiu, e MUITO. Nicholson é um ótimo ator, sempre com cara de louco e é impossível dizer que se saiu mal no papel. Mas, passadas três décadas, me vejo obrigado a dizer que também não foi tudo isso que tantas pessoas falam, apesar de alguns momentos bem inspirados. Talvez seja minha birra com um Coringa quase mafioso, algo que sempre me incomoda.

E ainda tem a questão da origem do Batman interligada com o Coringa, uma ideia que poderia ter destruído o filme. Péssima em sua própria essência, a ideia só não foi pior pois tiveram o bom senso de mostrarem essa relação apenas do ponto de vista do Batman, sem que o Coringa jamais se desse conta de que matou os pais de seu adversário. Ufa…

Fechando o trio de personagens realmente importantes está Vicki Vale, vivida pela bela Kim Basinger. Investiram muito na beleza, mas a personagem no fundo não tem importância alguma na trama. Era realmente um período onde ainda era muito raro uma personagem feminina ser bem usada, servindo apenas para interesse romântico. E abriu uma tradição onde Batman sempre se apaixonava perdidamente para no próximo filme sequer citar o amor anterior e já pular para o próximo. Não era mais fácil ser só um relacionamento rápido ao invés de romantizarem tanto?

Lendo tudo isso pode parecer que odeio o filme. Nada mais longe da verdade. Gosto e antigamente adorava, mas nem toda produção envelhece bem. Alguns elementos deste Batman ainda funcionam, mas muito em sua estrutura ficou datado. É algo comum, ainda mais com um personagem que ganhou várias outras adaptações desde então. Mas ainda são memoráveis cenas como a apresentação com “Eu sou o Batman”, a morte do Coringa (talvez o início dessa mania de desperdiçar grandes vilões) e a trilha sonora de Danny Elfman.

E você? Reviu o filme recentemente? Mantém a mesma opinião sobre ele desde que o assistiu pela primeira vez?

Leonardo Vicente

Nunca sequer visitou Gotham City, muito menos morou numa caverna, nem mesmo treinou com os maiores mestres marciais do planeta. No comando do site Fala, Animal! e escrevendo para a revista Mundo dos Super-Heróis, se deu conta de sua triste maior diferença quando comparado com Bruce Wayne: não tem a mesma fortuna que ele!