ColunasTop 5

Top 5 Momentos de Batman: Os Bravos e Destemidos

Entre 1992 e 2006 tivemos uma construção paulatina e constante de um universo DC na TV com as animações encabeçadas por Bruce Timm. Parecia impossível que qualquer outra animação pudesse fazer algo tão bom quanto, ao que provavelmente é, a melhor adaptação de todo o universo DC fora dos quadrinhos. Nunca antes havíamos visto tantos personagens, além de tom e clima, tão impecáveis quanto o que vimos durante pouco mais de uma década. E a verdade é que nada superou isso ainda no cinema, games ou qualquer outra mídia para além dos próprios quadrinhos.  Esse ainda é um dos universos compartilhados mais bem construídos que temos. 

Porém isso não significa que não temos outras boas adaptações animadas para a TV por aí. Em 2008 estreou a série Batman: Os Bravos e Destemidos que tinha a assustadora tarefa de fazer uma série do Batman sob a sombra do universo anterior com um minúsculo intervalo, de apenas dois anos, entre as produções. Porém a saída encontrada pelos produtores foi genial. Ao invés de tentar igualar o tom épico, sóbrio, e por vezes, elegante da versão anterior, eles partiriam para um outro extremo, mas talvez com igual elegância. A animação possuiu três temporadas e foi ao ar entre 2008 e 2011. 

A estratégia tomada foi abraçar por completo o lado camp da era de prata, como se eles piscassem por cima dos ombros para o espectador e dissessem “nós sabemos que isso tudo é muito bobo, mas também é muito divertido, não é?”. Porém ainda por cima a jogada de mestre foi a maneira de retratar o Batman. De certa maneira, ele segue sendo o Batman durão, metódico e pragmático, mas cercado por um mundo colorido e lúdico onde ele as vezes parece ser o único indivíduo verdadeiramente sério. 

Em todos os episódios ele faz dupla com um outro personagem do universo DC, seguindo a ideia do título original do Brave and the Bold nos quadrinhos onde os heróis sempre apareciam em parcerias nessa publicação. Isso permite que o Batman siga sendo esse herói imutável, e são os demais personagens que sofrem mudanças e amadurecimento. Outra escolha extremamente inteligente foi a seleção de personagens. Quase nunca vemos os medalhões como Super-Homem e Mulher Maravilha, mas em contra partida figuras como Homem Borracha, Átomo e Tornado Vermelho finalmente possuem a chance de brilhar por vários episódios. 

Nesse Top 5 veremos cinco momentos icônicos para os fãs mais ardorosos do universo DC e que jamais imaginávamos que presenciaríamos adaptados para a tela. 

5- Damian do futuro

No vigésimo terceiro episódio da segunda temporada temos a típica narrativa, que foi batizada na DC, de “histórias imaginárias”, que nada mais eram do que histórias que jamais poderiam participar da cronologia oficial. Isso podia acontecer porque elas eram malucas demais, ou porque davam fins definitivos para os personagens que impossibilitariam a sequência de novas histórias. O que esse episódio faz é exatamente isso, ao mostrar um futuro onde Batman se casa com a Mulher Gato e eles têm o filho Damian. Depois da morte trágica do casal, Dick assume o manto de Batman. Quando O Coringa ressurge alguns anos depois, Damian precisa assumir o manto de Robin. Vale lembrar que o filho de Batman havia surgido na fase de Morrison há apenas 3 anos naquele ponto, e a revista mensal onde ele colocaria Dick e Damian juntos ainda não havia sido publicada, ou seja, esse episódio trabalhou essa ideia primeiro. Temos até referência ao The Dark Knight Returns em dado momento. 

4- A morte do Besouro Azul

No primeiro episódio da série temos uma trama envolvendo Jaime Reyes, o Besouro Azul, e como o adolescente deseja se tornar um super herói. Ele acaba sendo um dos personagens mais recorrentes de toda a série e cumpre bem a sua função de “jovem herói deslumbrado com os seus ídolos, mas essencialmente com um coração de ouro”. Mas no oitavo episódio da primeira temporada temos uma trama envolvendo Ted Kord, que também já usou o nome Besouro Azul, e que nessa cronologia já está morto. Toda a narrativa envolve justamente a missão fatídica que deu fim a vida de Ted e como Jaime lida com o fato de seguir com o manto de alguém que Batman respeitava profundamente. Esse não é o Ted que conhecemos na fase cômica da Liga da Justiça, mas uma versão romantizada da era de prata. Um bom exemplo de como até esse desenho camp pode ter os seus momentos mais emocionais, impactantes e tratar da verdadeira natureza do heroísmo. Tem até menção ao Dan Garrett

3- One Punch! One Punch!

Um dos vários motivos que fazem com que essa série seja um deleite para todas as idades, mas as vezes ainda mais interessantes para os marmanjos, é o fato de que diversos episódios serem roteirizados por J. M. DeMatteis e ele não se acanha em recriar momentos icônicos de sua passagem pela DC. No décimo episódio da primeira temporada ele faz isso recriando o icônico soco de Batman, publicado na Justice League #5 de 1987, porém de um jeito um pouquinho diferente. Na trama, Despero está atacando a Tropa dos Lanternas Verdes e Batman se junta a luta com Guy Gardner. De modo geral, temos uma aventura básica, mas com alguns detalhes interessantes como o surgimento de Sinestro como vilão e a presença do glorioso G’nort. Porém num momento inicial onde os heróis ainda estão formulando um plano para deter Despero, Guy desafia a liderança de Batman e o icônico soco é repetido onde G’nort assume o papel do Besouro Azul dizendo “Um soco!”. 

2- Sherlock Holmes e Mike Mignola

Seguindo na primeira temporada, mas dessa vez no episódio quinze, temos uma história de viagem no tempo, mas com uma pitadinha especial. Batman acidentalmente volta para a Inglaterra do final do século IXX onde um misterioso vilão está roubando almas de moças inocentes. Isso o leva a juntar foças com Jason Blood/Etrigan e a dupla dinâmica Sherlock Holmes e Watson, e como esse caso claramente faz uma alusão as vítimas de Jack Estripador, o Batman chega a usar sua roupa no estilo Batman: Gotham 1889 (ou Gotham by Gaslight, no nome original). Vale lembrar que nesse quadrinho temos uma versão do Batman que existe nesse período histórico e efetivamente enfrenta o icônico Jack Estripador. O encontro de Batman e Sherlock também foi algo que já aconteceu nos quadrinhos, especificamente em Detective Comics (Vol 1) #572 em março de 1987. 

1- The Super-Batman of Planet X!

Esse é o nome do nono episódio da segunda temporada onde o icônico Batman de Zur-En-Arrh faz sua aparição. A trama do desenho é basicamente uma adaptação do quadrinho Batman #113 de agosto de 1958 onde Batman viaja para um planeta distante chamado Kanjar Ro, onde um nativo se inspira no Batman para proteger seu planeta. A diferença da adaptação animada é que os robôs gigantes assolando o planeta não são fruto de uma invasão de uma outra raça alienígena, mas sim de um cientista louco chamado Rohtul. O Batman de Zur-En-Arrh possui poderes no estilo Superman e com direito de um interesse romântico chamado Vilsi Vaylar, e ela é uma repórter para manter ainda mais as semelhanças com o Homem de Aço. O que torna esse episódio ainda mais especial é que a voz do Batman de Zur-En-Arrh é interpretada pelo icônico Kevin Conroy, e Rohtul (leia o nome dele ao contrário) é interpretado por Clancy Brown, e Vilsi Vaylar é vivida por Dana Delany, revivendo seus análogos na série animada do Superman. E eu sei o que você está pensando. Essa história só foi trazida à tona graças a Grant Morrison em sua fase a frente do Morcegão. De fato, sua icônica história com essa estranha versão do Batman foi publicada em 2008, e esse episódio foi ao ar em 2010. 

 

Levando em conta o primeiro lugar do nosso Top 5 é possível perceber a forte influência da fase de Morrison a frente do Batman, quase como um reflexo direto. É até impressionante que os roteiristas conseguissem adaptar tão rapidamente essas ideias levando em conta as dificuldades existentes na animação para a TV e aprovação dos produtores. Uma série animada que se propõem a homenagear o lado B do universo DC, e basicamente adaptando conceitos esquecidos da era de prata, parecia ser algo que o próprio Morrison escreveria. Era como se nesse período houvesse um Zeitgeist muito especifico que nos levava a revistar a era de parta e reinterpreta-la para o século XXI, especialmente na DC. 

A verdade é que esse Top 5 poderia ser facilmente um Top 10, mas vale guardar algumas outras as coisas para um post futuro. Mas caso você tenha um preconceito contra essa série devido ao traço e design, tente se libertar disso. Eu tinha exatamente o mesmo preconceito por comparar constantemente com as animações do Bruce Timm, é por muito tempo deixei de assistir uma série que era feita sob medida para mim. Um material obrigatório para qualquer fã do DC. E para os fãs mais radicais do Batman que não aceitam piadinhas, e só querem Nolan e Frank Miller: quem sabe lá no fundo você só não precise de um Bat-mirim, um Bat-cão e muita galhofa para voltar a sorrir e sair de cima dessa gárgula no topo de um prédio? 

 

Raul Martins

Estudante de escrita criativa e editorial, além de historiador renegado. Autor de A Cabeça do Embaixador e Onde os Sonhos se Realizam. Irmão mais velho da Bia e filho da Dona Raquel. Fã de Batman, mas não chamaria ele para um churrasco.