E esse pôster final da Liga da Justiça?

Antes de começar vamos voltar algumas décadas…

O primeiro filme que assisti no cinema foi E.T – O Extraterrestre, lá no começo dos anos 80, eu com 5 anos e minha irmã 3. Nossos pais nos levaram a um cinema no centro de São Paulo que, em sua fachada, tinha montado um cartaz gigantesco, pintado em madeira com cenas do filme. Lembro de olhar para as bicicletas voando em frete à lua e, naquele exato momento, querer uma achando que iria voar. Ganhei uma vermelha no Natal do mesmo ano. Aquele cartaz era mágico para uma criança, uma cena do filme eternizada que não desapareceria rapidamente de meus olhos, essa é a função de um pôster, nos preparar para o espetáculo.
Nesse momento começa a imersão.

No final dos anos 80, 1987 para ser preciso, meu pai comprou um videocassete. Foi um evento, a família toda reunida no sábado para assistir Indiana Jones e o Templo da Perdição. Naquela época, a locadora perto de casa alugava as fitas com as capas originais. Isso durou pouco, depois adotou caixas pretas com o nome do filme em um papel branco colado com durex. No domingo, tentei desenhar a capa, que apresentava os personagens e me contava graficamente sobre o que era o filme. Lá estavam todas as informações, personagens principais, cenas do filme, muita ação e tudo isso sem entregar surpresas do filme. Copiei aquela capa umas 3 vezes aquele dia e, antes de dormir, mostrei para meu pai, que gostou!
Na segunda-feira, ganhei de meu pai 3 revistas sobre os dois primeiros filmes do Indiana Jones. Uma delas mostrava os próximos lançamentos daquele ano, com 4 cartazes em A4, dois do Indiana Jones um do E.T e outro do Superman, o filme de 1978. Copiei todos.

Com o decorrer das semanas, eu, minha irmã e minha mãe criamos o hábito de, toda sexta-feira, na saída da escola, parar na locadora e cada um escolher um filme. A capa do filme era o mais importante, pois estamos falando de um tempo em que não havia internet e o visual era o que fazia alguém pegar um filme e ler sua sinopse. Lembro de alugar Robocop, Férias Frustadas 1 e 2 (Com capas do Boris Vallejo), Te Pego Lá Fora e Os Goonies pelas capas que me chamaram a atenção. Isso também se aplicava aos videogames, nos anos 80 eu tinha um Atari 2.600, para imaginar o que a capa estampava era um exercício de imaginação tremendo. Jogos como River Raid, Keystone Kepers e Enduro possuíam capas maravilhosas que faziam qualquer criança querer o jogo.

Isso perdurou até a metade dos anos 90, quando começaram a tratar as fotos por computador… mais barato e rápido. Antes, a maioria dos produtos apresentavam ilustrações hiper realistas. Chocolates e refrigerantes são alguns exemplos. Conseguir o efeito desejado direto na fotografia era quase impossível, iluminação e objetos tinham que passar o que o diretor tinha em mente, então desenhos hiper realistas eram a solução. Um exemplo que merece menção são caixas de Toddynho usadas nos comerciais, que eram maiores que um pacote de OMO. Na época, as lentes das câmeras não eram potentes como as usadas hoje e alguns profissionais criavam artesanalmente tudo, para mostrar os detalhes do produto.

Com isso a qualidade foi decaindo e bons cartazes e capas ficando mais raros. Acho que o ultimo que me chamou a atenção em uma locadora foi Donnie Darko (na Blockbuster). Nele, vi um rosto de um coelho azulado bizarro com várias cenas o formando e, no lugar de seus olhos, dois buracos negros. Sinistro!

A Internet surgiu com a informação mais rápida e acessível, janelinhas pequenas em QuickTime (antes do YouTube) nas criticas de filmes nos mostravam trailers que só assistíamos em cinemas, no começo de uma fita alugada ou, com sorte, na TV. Para mim esses eventos marcam o fim dos grandes cartazes.

Atualmente, além de desenhar Quadrinhos e Storyboards, uma vez por semana ministro um curso para ajudar alunos vestibulandos em suas provas especificas nos vestibulares de Arquitetura, Design Gráfico, Artes Plásticas e Engenharia. Na primeira aula mostro como contar uma história com um desenho, mostro 3 estilos usados em cartazes, uso Indiana Jones e a Última Cruzada, Crepúsculo e Donnie Darko, mostro a regra básica de composição, unidade, equilíbrio e variação de tamanho e forma dos elementos. Dos 3 cartazes, 2 seguimentos são bons (Indiana Jones e Donnie Darko) e um ruim (Crepúsculo), esse último usado em praticamente todos os cartazes, jogos, capas de livros e quadrinhos atuais.

Vamos entender cada exemplo.

Indiana Jones e a Última Cruzada:
Feito com cenas do filme, vemos os personagens principais e algumas cenas de ação, tudo numa moldura e com uma composição no formato de uma taça (simbolizando o Santo Graal, objeto procurado no filme). A maioria dos cartazes dos anos 60,70 e 80 seguiam esse estilo. Mostrar todos os elemento da história, personagens, mas não entregar o final, nos dando vontade de assistir ao filme, junto com aquela sensação de surpresa quase inexistente nos dias atuais.
Abaixo alguns exemplos que seguem essa linha, alguns desenhados e outros com o bom uso da fotografia retocada digitalmente.

Crepúsculo:
Cartaz mostra Bella, com cara de nada, abraçada com Edward, também com cara de nada. Isso é o que vemos em quase todos os cartazes produzidos hoje. Vi esse pôster no corredor de saída do cinema, achei que era uma comédia romântica daquelas que eles se odeiam e no final ficam juntos (acho Crepúsculo uma comédia, muito boa, aquilo não é sério). Quando me falaram que o cara era uma Fada ou Vampiro e que haviam Lobisomens e o filme mostrava a luta dessas duas espécies, quase não acreditei. O cartaz não possui informação nenhuma sobre isso.
Vanilla Sky é outro exemplo.

Exemplos mais atuais:

O que é o Ragnarok?
Na mitologia nórdica, Ragnarök (em português: destino dos deuses) representa a escatologia nórdica, marcado por uma série de eventos futuros, incluindo uma grande batalha que resultaria na morte de diversos deuses (incluindo OdinThor e Loki), seguidas de ocorrências de várias catástrofes naturais e a submersão do mundo pela água. No cartaz há uma breve menção às águas, mas não mostra o que é o Ragnarok nem a história do filme. Esse cartaz pelo menos é bem montado e equilibrado, mas as cores são uma bagunça. Pendurar isso na parede é certeza de tirar em uma semana.

Em O Homem de Aço, só temos cartazes do Superman algemado, voando e parado. Não mostra nada da história, grande coisa que todos conhecem o personagem… quero saber se é diferente do que eu já vi.

Em Piratas do Caribe, todos são iguais (personagens na parte de cima, navios embaixo); às vezes não dá para saber de qual filme é o cartaz.

Donnie Darko:
O rosto do coelho Frank é  formado com cenas do filme,  Frank é o amigo imaginário de Donnie, um rapaz no ensino médio com problemas psicológicos. Um dia é chamado por Frank, que lhe dá uma contagem regressiva para o fim do mundo. Na ocasião, ele o chama para fora de sua casa, salvando sua vida, pois no exato momento de sua saída uma turbina de avião cai em seu quarto. Frank começa a aparecer com frequência e pede para Donnie fazer algumas “missões” como queimar a casa de alguém, estourar um cano de água da escola e por aí se segue a história.
Toda a narrativa do filme é conduzida pelas ações de Frank para com Donnie, por isso seu cartaz mostra o rosto de Frank criando a história. Esse é o estilo que mais gosto, mas é o menos usado, ele nos faz pensar e passar algum tempo olhando e tentando descobrir novas informações.

Pôsteres que seguem a mesma linha:

A prova especifica é para saber se o aluno consegue resolver uma questão graficamente. O primeiro exemplo é o mais usado na prova e que garante a nota, o segundo o aluno não atinge a nota e o terceiro o aluno tira a nota máxima. O cara que montou o pôster da Liga da Justiça não passou… o último cartaz do filme que estreia no dia 16 de novembro não foge da maioria do que é produzido atualmente. Ele é ruim de muitas maneiras, a primeira é que o montador não sabe o básico do desenho, não tem composição e os personagens estão com as proporções erradas, não conta sobre o que é o filme e, o pior, mutila os personagens. Fiz um esboço de como esse pôster poderia ser aproveitado sem mudar a ideia original que é fraca.

Diminuímos o tamanho da Mulher-Maravilha, ela esta maior que BatmanAquaman, continuaria sua perna, pois ela está sem joelho. Com isso a cabeça e o tridente do Aquaman ficariam mais no alto, seguindo nosso sentido de leitura da esquerda para a direita. Aumentava o tamanho do Batman e o Cyborg. E colocaria o Cyborg com a arma na mão contraria, ficando pronto para o ataque (ninguém coloca a mão de ataque na frente quando corre). O Aquaman não tem pernas, colocando-o mais para a esquerda e com o aumento do Batman e Cyborg, o problema seria resolvido. Colocaria o logo na parte de cima e colocaria alguns Parademônios indo ao ataque, para não parecer que os heróis estão olhando para o nada. Aumentaria a capa do Batman para criar uma composição em X deixando tudo mais equilibrado.

Com essas mudanças, o pôster ficaria apenas aceitável, mas o cara ainda não ia passar na prova.

Um dos primeiros pôsteres do filme mostra todos os heróis olhando para frente, em uma referencia à arte de Alex Ross e Norman Rockwell. É simples, mas nos mostra a imponência dos personagens, então passa. É nítido que a saída de Zack Snyder deixou essa bomba passar, ele participa de praticamente todas as etapas do marketing de seus filmes e agora toda a campanha está com os mesmos remendos feitos na do Esquadrão Suicida.
Se compararmos os primeiros com esse (que são apenas personagens estáticos, mas sem erros grotescos), a diferença é gritante.

Fazer uma arte em capas de jogos, filmes, livros, quadrinhos ou discos não é apenas colocar uma informação pobre sobre o produto e lançar achando que tudo bem, por existirem outros meios de fazer essas informações chegarem ao consumidor. Estão muito equivocados. Todas as novas mídias existem para agregar, e não substituir o que por muito tempo vendeu o produto. Uma boa arte na embalagem ou propaganda nos faz querer guardar e revisitar a obra.

A Warner do Brasil vai lançar nos cinemas um pôster do filme da Liga da Justiça desenhado pelo brasileiro Ivan Reis, com cores do também brasileiro Marcelo Maiolo, ambos artistas que trabalham com esses personagens.

A função da história é estudar o passado, entender o presente e melhorar o futuro.

Abraços e beijos, queridões!

Luis Maximus

Pai do Antonio, Desenhista de HQs, Storyboards e Professor.