Leslie Thompkins, a bússola moral do Batman

Uma das personagens que eu achava mais interessantes da mitologia do Batman era a Leslie Thompkins. Se o Batman é uma bússola moral para muitos de seus fãs/admiradores, Leslie, junto com Alfred, é a bússola moral do Morcego.

Sua primeira aparição foi em março de 1976, na história There is no hope in Crime Alley! publicada na Detective Comics #457, escrita por Dennis O’Neil, com arte de Dick Giordano e editada por Julius Schwartz (que equipe meu povo, que equipe).

Leslie Maurin Thompkins é uma personagem que, desde sua criação, desenvolveu papel relevante nas histórias do Batman.

Capa de Detective Comics, #457

Nesta história, é apresentado pela primeira vez o Beco do Crime (Crime Alley, no original) que, antes do assassinato dos pais de Bruce, era chamado de Park Row. Sabiam disso? Até 1976, o Beco do Crime não existia oficialmente nas histórias do filho da Martha que vale!

A trama inicia-se com Alfred tentando descobrir aonde Bruce iria naquela noite. Lendo as notícias criminais, ele cita um roubo a uma joalheria que está deixando tanto a polícia de Gotham quanto o FBI atônitos em sua resolução, porém, grosseiramente, Batman manda Alfred cuidar de suas tarefas e informa que voltará de manhã para o prédio da Fundação Wayne. Nessa época, o Homem-Morcego não morava na Batcaverna, mas sim em um arranha-céu em Gotham, sede da empresa.

Alfred, que se orgulhava de ser um dos confidentes mais próximos de Wayne tanto quanto Robin era, nunca havia conseguido descobrir aonde Batman ia todas as noites naquela data.

 

Assim que chega ao Beco do Crime, Batman impede um roubo a um carro, apenas ameaçando os bandidos, que prometem largar a vida de roubos de tanto medo que sentem. Mesmo assim, gratuitamente, o Batman joga um deles contra o carro, cena esta que foi utilizada, na minha visão, para mostrar o grau de irritação em que o Morcego estava submetido. Lembram do tratamento grosseiro que deu ao Alfred?

Logo em seguida, Batman impede um assalto a um senhor. Nesta abordagem, o ladrão tenta lutar com o Homem-Morcego, mas, como ele não é trombadinha do Rio de Janeiro, apanhou e foi deixado amarrado na calçada para a polícia pegar depois (seria o Batman fascista?).

Batman apanhando de meninos de rua cariocas na história The Idiot Root (Batman no Brasil), história originalmente publicada em Batman #473 e #474 e Detective Comics #639 e #640, em 1992.

 O senhor salvo pergunta ao Batman por que, ele, combatente de criminosos internacionais, o maior detetive do mundo, estava combatendo crimes comuns? (Seria o Batman comunista?) Batman responde apenas que crime é crime, e que o roubo de um dólar dele é mais importante do que milhares para um banqueiro. Em seguida Batman pergunta se o senhor sabe de Leslie Thompkins.

Seguindo as orientações do senhor, Batman segue andando pelas calçadas do Beco do Crime. Isso, andando! Um bêbado o saúda e lhe diz onde está Leslie. Batman a encontra no exato momento em que está sendo assaltada por dois criminosos e Leslie tentava inutilmente convencê-los a não roubar a sua bolsa, que estava com dinheiro para caridade.

Batman começa a bater em um dos assaltantes, que o ameaçou com um revólver, deixando-o nervoso como não estamos acostumados a vê-lo nos quadrinhos. Em pensamentos, o Homem-Morcego recorda que foi ali, naquele local, onde seus pais foram mortos, que ele também conheceu Leslie.

O Homem-Morcego atacava os ladrões e, enquanto lutava (ok, ok, espancava-os), recordava o dia que sua família foi morta por Joe Chill, exatamente vinte e um anos antes, bem naquele local. Batman só para quando Leslie intervêm. Ele pede desculpas para Leslie, diz que perdeu a cabeça e deixa os ladrões desacordados na calçada para a polícia (de novo) e segue andando com Leslie. Percebam que ele pediu desculpas a ela! Leslie pede que se acalme, que não é saudável ficar nervoso daquela maneira.

Leslie diz então que o esperava, mesmo não sabendo a razão dele sempre visitá-la naquele dia. Batman responde que era para Leslie considerar a razão como um memorial para ele, uma lembrança do que ele era, de seu começo e de seu provável fim.

Alguém aí está se lembrando do final de Cavaleiro das Trevas, do Frank Miller?

Batman questiona do porquê ela não se muda do Beco do Crime, ela diz que uma vez viu os pais de um menino serem assassinados na frente dele e nunca conseguiu esquecê-lo, então decidiu devotar a sua vida a prevenir tragédias como essas, sonhando com o dia em que o trabalho dela e do Batman não sejam mais necessários. Batman diz a Leslie que ela era a única esperança do Beco do Crime e a beija na testa antes de ir embora.

 

A história termina com Alfred levando o café da manhã para o Batman, que dormia com um sorriso sereno, deixando o mordomo surpreso com a cena.

Da minha parte acho que a Sra. Thompkins é ou muito ingênua, para não ter ligado os pontos e deduzir que o Batman poderia ser aquele órfão, ou muito esperta e esperava que ele confessasse a ela.

Leslie Thompkins desde então tornou-se personagem recorrente das HQs do Homem-Morcego, transformando-se  em umas das amigas mais próximas dele. Mais tarde ela aparece como uma madrinha do jovem Bruce Wayne, que se preocupa com seu crescimento e seu comportamento antissocial.

Posteriormente, descobre que o garoto que ela confortou tornou-se o Batman e não concorda com o vigilantismo, passando a sentir-se culpada por Bruce Wayne ter se tornado o Batman.

Há uma referência a essa história na última edição da segunda série do Asa Noturna, em Nightwing #153, de abril de 2009, na história Black Dawn, (Amanhecer Negro, em tradução livre), escrita por Peter Tomasi, desenhada por Don Kramer e  com arte-final de Jay Leisten, Sandu Florea e Rodney Ramos.

Capa de Nightwing #153. vol. 02.

Nesta época, Bruce Wayne era considerado morto e Asa Noturna faz uma homenagem a seu mentor, na esquina em que seus pais foram assassinados, onde a trajetória do Batman, e portanto a do Asa Noturna, teve início. No bevo, Dick acende uma vela, a mesma que utilizou para fazer seu juramento quando torna-se parceiro do Batman em Detective Comics #38.

A última página da história refere-se à capa de Detective Comics #457 , com uma dedicatória a Dennis O’Neil, Dick Giordano e Julius Schwartz.

Comparem a imagem acima também com a primeira página da história.

 

Se a equipe que escreveu essa história do Asa Noturna não é tão celebrada quanto a equipe que criou Leslie Thompkins, ao menos devemos prestigiar todo o respeito que demonstraram a mitologia do Homem-Morcego. É uma homenagem tocante ao que é o Batman e tudo o que ele significa.

Juliano Souza Ribeiro

Agente secreto durante o dia e aspirante a herói mascarado durante a noite, ainda encontra tempo para ser o arqueólogo da Mansão Wayne.

  • Matheus Gonçalves

    Parabéns pelo texto. Muito bem redigido. Do Denny Oneil infelizmente só li o que foi publicado pela Panini no lendas do cavaleiro das Trevas, essa eu deixei passar batido. Vou procurar pra ler agora.

    O interessante, é que a Leslie é uma parte do trauma de Bruce que, diferente de outras coisas, ele mantém por perto e respeita. Todos sabemos que o Batman só para quando o crime acabar, mas como o crime nunca acaba, Batman está fadado a morrer pela sua missão. É um final meio trágico, mas o que é inspirador no Batman está que ele realmente acredita que é possível, ele acha que pode vencer. E se ele acredita, depois de tudo que viu, por que o leitor não deveria acreditar? E essa característica você vê bastante na Leslie. Ela acredita que pode resolver os problemas do beco do crime sendo pacífica. O Batman é quase a versão dark das motivações dela. Acho que isso é um motivo pra ela ficar tão chateada com o Batman. Por que essa convicção dela no bem, ajudou muito a criar o Batman. Então ele é preso nesse paradoxo, de que ele conheceu esse senso na Leslie, contudo desenvolveu um próprio e isso causa um conflito com a pessoa que o ensinou sobre compaixão e perseverança.

    É uma dinâmica muito interessante. Da Leslie um material que eu gosto muito é uma edição de Terra de Ninguém onde zsasz é deixado na clínica dela e isso gera um clima de tensão gigantesco. É muito bem escrita, e traz essa dicotomia entre os dois.

    Como sempre, Batman é desenvolve seu senso de justiça na infância através de seu trauma e se torna o Batman, um ser incorruptível, que busca fazer o bem. Não só parando o crime, mas também dando significado à vida das pessoas (como ele fez com Dick). Por que os filmes, e até algumas HQs, não conseguem ver isso? Rs.