BATMAN & THE SPIRIT

ATENÇÃO!
Este texto contém altos spoilers da edição “Batman & The Spirit: Convenção do Crime”.
Depois não diz que eu não avisei.

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É triste, sabe?!

Quando eu organizei minha coleção de crossovers, ao pegar Batman & The Spirit nas mãos, eu achei que o post sobre a edição seria um jeito legal de homenagear o mestre Will Eisner.
Mal sabia eu o quanto esse pensamento mudaria.

No começo da madrugada do dia 14 de maio, morreu aos 53 anos o quadrinista Darwyn Cooke, vítima de um câncer agressivo, revelado publicamente apenas um dia antes.
Roteirista competente e artista fora de série, talvez você o conheça pelo trabalho em Mulher-Gato, junto do Ed Brubaker, revitalizando a personagem e ainda lhe dando um novo uniforme. Talvez você conheça o nome pelas animações do Batman e do Superman dos anos 90, nas quais ele trabalhou no storyboard, ou então pela abertura de Batman do Futuro. Talvez você saiba quem ele é pela série Parker, adaptando para os quadrinhos os romances do escritor Richard Stark, ou pelo seu trabalho em séries como Before Watchmen (Minutemen e Silk Spectre), na antologia Solo, e em outros títulos que vão de Homem-Aranha à X-Force. Talvez você tenha visto seus desenhos nas capas comemorativas que a editora DC fez no final de 2014, cada uma delas uma obra de arte por si só. Talvez você tenha lido Batman: Ego, HQ que penetrou profundamente no psicológico do personagem como poucas conseguiram, e que eu coloquei no meu “Top 5 Melhores Histórias do Batman” no primeiro podcast aqui do Mansão Wayne. Ou, talvez, você tenha lido sua obra prima, DC: A Nova Fronteira, na qual brincava magistralmente com os conceitos dos heróis da editora nos anos 50.
Ainda que tenha começado nos quadrinhos tarde, no ano 2000, o cara produziu uma bibliografia memorável.

Outro ponto nessa lista é a revisita que ele fez àquele que é considerado o primeiro super-herói criado para o público adulto:
O Spirit!

Criado em 1940 por outro artista fora de série, Will Eisner, o Spirit ficou marcado pelas suas inovações criativas e suas narrativas extremamente à frente de seu tempo. Sabendo que não valia a pena tentar mudar o material clássico ou dar sua “releitura” ao personagem – como poderia fazer outro artista mais prepotente – o que Darwyn Cooke fez foi simples: Seguir a cartilha Eisner.

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Mas antes de inserir o herói em seu catálogo, a editora resolveu apresentá-lo aos seus leitores à melhor maneira DC. Enfiando o Batman na história, claro.
E bom.. deu certo!
Claro, né.

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Co-escrita pelo Cooke e pelo Jeph Loeb, Batman & The Spirit levou o Prêmio Eisner de 2007 de Melhor Edição Única, e também de Melhor Colorista para Dave Stewart.
A história mostra o Homem-Morcego, o Menino Prodígio e o.. hã, o Espírito (como era chamado aqui no Brasil) indo ao Havaí atrás de seus maiores inimigos, que planejam assassinar o Comissário Gordon, o Comissário Dolan e mais um monte de policiais que participam de uma convenção por lá.
É uma leitura divertidinha, simples, tem boas sacadas e apresenta o herói, seus aliados (com notável ausência do Ébano) e principais vilões. A fórmula é a de sempre, com o Batman e o Spirit brigando, discutindo, e depois se juntando para vencer as treta tudo e salvar a galere. Êêêêêêêêêê!
Tem alguns probleminhas de ritmo, e algumas saídas fáceis e convenientes. Nada que comprometa, talvez pela própria despretensão da trama.

Mas o roteiro é o de menos.
O que realmente vale a pena aqui são os desenhos.

Da pra perder alguns minutos olhando cada quadrinho, estudando as expressões dos personagens, os detalhes do cenário, os ângulos, a narrativa..
Dono de um traço ingênuo mas rebuscado, com seu estilo cartunesco e levemente noir, Darwyn Cooke já se mostra digno do legado logo no começo da história. Como era costume de Eisner, a página de apresentação do personagem estiliza o nome Spirit, dessa vez com o letreiro que despenca junto do herói.

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Pier Sixteen se torna um “Spirit” estilizado

Apesar de não ousar em sua narrativa tanto quanto Will Eisner ousava, Cooke adota ângulos de cena criativos, fugindo do lugar comum, brincando bastante com sombras para criar o clima da história.
Já acostumado a trabalhar com o Batman, ele se mostra respeitoso ao brincar com o universo do Spirit.

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Se vale a pena?
Ainda que o roteiro sirva como um simples pretexto para apresentar um pouco da mitologia do Spirit ao público DC, a arte e a narrativa gráfica compensam muito.
E ainda te deixam com aquela vontade de mais história, mais desenhos, mais Spirit. Vale também a pena ir atrás da série do personagem pelas mãos do Cooke, cujas 12 edições a DC publicou entre 2006 e 2008. Por aqui, elas saíram em 6 edições pela editora Panini, em março de 2008.

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Assim como qualquer um dos trabalhos que eu citei lá em cima, é impossível folhear essas páginas sem se dar conta da perda que tivemos.
Darwyn Cooke foi um daqueles talentos raros, que surgem de vez em nunca num mercado que prefere se aproveitar de artistas medíocres do que dar o devido valor aos que o merecem. E sem se deixar ser desperdiçado, Darwyn Cooke aproveitou o pouco tempo que teve para deixar sua marca eternamente na história das histórias em quadrinhos. O tipo de artista que conseguia pegar uma história bobinha e despretensiosa e transformá-la num clássico.
Eu vou sentir falta do seu traço elegante, das suas mulheres de olhos grandes, e de um desenho que não só nos remetia ao passado, mas também o celebrava.

Celebremos.
Bom descanso, Darwyn Cooke.

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Concorda? Discorda? Não tem opinião formada sobre o assunto? Sério?! Mas meu querido, então o que que você ta fazendo aqui? Vai sei lá, aprender origami, bater panela ou fazer algo mais útil do seu tempo.
Oooou então escreve qualquer coisa aí nos comentários.
Ninguém vai ler mesmo..  😀

Thiago Brancatelli

Lindo, alto e charmoso. Não possui bichos de estimação, mas divide o aluguel com um cachorro vira-lata chamado Tyler. Já fez tudo o que queria antes dos 30, por isso passa seus dias deitado no sofá lendo quadrinhos, vendo Netflix e comendo Tortuguitas. Está em um relacionamento sério com o site XVideos, mas é apenas pelo sexo.